CONFRARIA DO PÃO
«NEM SÓ DE PÃO VIVE O HOMEM...» MAS TAMBÉM DA PALAVRA

uma APRESENTAÇÃO por JORAGA
um Cigano Castanho vindo da Serra da Estrela

contacto © joraga ®

A POESIA POPULAR como ESTRATÉGIA para a LITERACIA
(Liberdade - Desenvolvimento)

IMAGENS: diaporama 1 - diaporama 2

 

«Nem só de Pão Vive o Homem»

17 de Julho de 2010

A Conferência que pedimos é:

A Poesia Popular como estratégia para a Literacia  

Pelo Confrade: José Rabaça Gaspar

O assunto que nos foi proposto, para o evento a realizar pela Confraria do Pão, a 17 de Julho de 2010, subordinado ao tema:

«Nem só de Pão Vive o Homem», agradecendo o empenho para que o acontecimento a que metemos ombros possa vir a constituir mais uma Jornada de séria afirmação da Cultura Alentejana é:

 

A Poesia Popular como estratégia para a Literacia

 

Terá a participação dos Poetas Populares da Confraria, o Ti Limpas (Manuel Inácio Veladas de seu nome), o Coimbra (Manuel João de seu nome)… Tudo bem. Disse sim e tentei preparar umas notas para abrir uma CONVERSA animada com os possíveis participantes. A ideia era, além dos poemas propostos, recorrer à Poesia Popular e em especial às DÉCIMAS (sua Arte Maior) para trocarmos ideias sobre o tema. Até me propus, e proponho, preparar um diaporama para os intervenientes acompanharem melhor os poemas e as obras e caras dos seus autores.

 

Subitamente fico a saber que se trata de uma conferência e com texto para ser publicado antecipadamente!!!

Já um tanto perplexo com o tema proposto e sobretudo pela pomposa proposta de se tratar de uma CONFERÊNCIA (como uma Prelecção, discurso, literário ou científico, em público), ocorreu-nos de imediato logo um sub título:

 

A Poesia Popular como estratégia para a Literacia

(Uma complexa teia de ambiguidades e confusões em que nos podemos deixar enredar!!!) …

 

Sendo assim, também o tema do EVENTO merece um sub título:

«Nem só de Pão Vive o Homem, mas também da PALAVRA…»

(considerando a citação completa PALAVRA que sai da Boca de DEUS!!! como redundante)

Fica assim o tema da pretensa “CONFERÊNCIA” perfeitamente enquadrado com o tema do evento, sobretudo se lembrarmos mais uma vez a sábia «glosa do Anastácio Pires, dos Orvalhos, ajudados pela memória do Ti Limpas:

Sem Cultura e (sem noção) criação
Não pode haver alegria
A Cultura é como o Pão
Faz falta no dia a dia…  

Posto isto, vamos propor 3 pontos para nos orientarmos nesta CONVERSA, TROCA de IDEIAS entre AMIGOS, que só valerá a pena se for enriquecida pelos participantes, mesmo discordando e/ou acrescentado pontos, que a tornem mais rica e criativa.

Pontos propostos:

1 - O que entendemos por literacia e /ou iliteracia?

2 – A importância de «SABER LER” como base de realização pessoal e inserção social… mostrar o entusiasmo e quase deslumbramento dos Poetas, muitos considerados “Analfabetos”, pela oportunidade que tiveram de “aprender a ler” manifestada em várias Décimas e relatos reais…

3 – Os perigos da “INSTRUÇÃO bancária” (como lhe chamava Paulo Freire) … e assim, ver entretanto as armadilhas em que se podem enredar os “alfabetizados” pelos tidos com “instruídos” e/ou “sabidos” que, em vez de “educarem para a Liberdade e Cidadania, pretendem, tão só, que se aprenda a “ler” o que eles determinam… e recusam o diálogo ou o papel interventivo dos “alfabetizados” críticos e conscientes… Dar uma vista de olhos pelos “MIDIA” e seus donos…

Como apoio, fazer as referências oportunas às introduções e esboços de estudo das cerca de três dezenas de obras citadas, em especial:

- Nasce do meu Pensamento, Manuel Inácio Veladas (Ti Limpas), edição da Confraria do Pão, 2003.

- Poetas Populares do Concelho de Beja, Edição da Câmara Municipal de Beja, 1987).

- HÁ TANTA IDEIA PERDIDA - 1º Encontro de Poetas Populares Alentejanos - - Centro Cultural Popular Bento de Jesus Caraça – c/ apoio da Câmara Municipal de V. V. Agosto de 1981

- POETAS DE CÁ, Vol. I – breve panorama da poesia em Portel, recolha, organização e introdução Paulo Lima, Câmara Municipal de Portel

- Gritos na Solidão – Décimas de Inocêncio de Brito (1854 – 1938) – S. Matias. Beja, 2006

- CANTADORES DE ALEGRIAS E MANGAÇÕES - Ed. Da Câmara Municipal de Alandroal, 1993

- «em cada casa uma porta – em cada porta um postigo» «em cada vida um poeta – em cada poeta um amigo» - Antologia de Poesia Tradicional do Alentejo, Edição – Associação Terras Dentro, 1996

- A ilustrar esta OBRAS – apresentar em DIAPORAMA com algumas dezenas de obras colectivas e individuais, nacionais e do Mundo Ibero-americano onde esta manifestação de Cultura está enraizada.

* * *

1

1 - o que entendemos por literacia e /ou iliteracia?

Definições do dicionário:

literacia - (inglês literacy) - s. f.: 1. Capacidade de ler e de escrever. 2. Capacidade para perceber e interpretar o que é lido.

iliteracia - (inglês illiteracy) - s. f. 1. Qualidade ou condição do que é iletrado. = aliteracialiteracia; 2. O mesmo que analfabetismo. 3. Incapacidade para perceber ou interpretar o que é lido.

Podemos avançar um pouco mais e verificar que o “ACTO de LER” é um “ACTO CRIATIVO” equivalente ao “ACTO de ESCREVER” e o ACTO de ESCREVER e de FALAR, só se torna completo no ACTO de COMUNICAR”… sem o qual perde todo o sentido. Podemos reflectir nas propostas seguintes:

IN http://badinfo.apbad.pt/Congresso9/COM1.pdf

por Maria da Graça Guilherme d’Almeida Sardinha – Universidade da Beira Interior

«Ao tornar-se um contínuo explorador do texto, o leitor executa um acto de compreender o mundo. O compreender do texto faz com que o leitor o transforme e, em simultâneo, se vá transformando a si mesmo.

«Qualquer sujeito apresenta o seu próprio nível de literacia consoante a forma como lê e vê o mundo.»

«Possuir um bom nível de literacia em leitura significa estar actualizado, poder ser autónomo nas suas escolhas, ser interventivo na sociedade a que se pertence.»

 

Podemos abordar também os aspectos mais analisados quando usamos este neologismo (dos anos 90 – 1995?) LITERACIA / ILITERACIA, em vez de ALFABETIZAÇÃO / ANALFABETISMO, que se tem debruçado mais sobre a iliteracia da INFORMAÇÃO e da INFORMÁTICA… uma vez que estamos em plena ERA da INTERNET!!!

 

In Biblioteca do conhecimento online

http://www.b-on.pt/index.php?option=com_content&view=article&id=199&Itemid=19&lang=pt

«A literacia de informação é um conjunto de competências de aprendizagem e pensamento crítico necessárias para aceder, avaliar, e usar a informação de forma eficiente.»

«Aprender a aprender está no cerne da literacia de informação, o que em última análise incrementa o sentido da descoberta, o espírito inquisitivo e o gosto pela aprendizagem ao longo da vida.»

Mais uma longa citação para guardar só as ideias principais:

In A Literacia da Informação – por Carina da Conceição Sousa da Silva – do Instituto Politécnico do Porto

http://literaciadainformacao.web.simplesnet.pt/Literacia_da_informacao.htm

Literacia Informação:

«Devido ao facto de vivermos numa sociedade da informação, que se começou a falar de um novo tipo de analfabetismo afectando a população que, apesar do aumento das taxas e dos anos de escolarização, evidencia incapacidades de domínio da leitura, da escrita e do cálculo, vendo por isso, diminuída a sua capacidade de participação na vida social. Este novo “analfabetismo”, dito funcional, teria a ver com aprendizagens insuficientes, mal sedimentadas e pouco utilizadas na vida.

Entende-se por literacia como a capacidade de cada indivíduo compreender e usar a informação escrita contida em vários materiais impressos, de modo a atingir os seus objectivos, a desenvolver os seus próprios conhecimentos e potencialidades e a participar activamente na sociedade. A definição de literacia vai para além da mera compreensão e descodificação de textos, para incluir um conjunto de capacidades de processamento de informação que os adultos usam na resolução de tarefas associadas com o trabalho, a vida pessoal e os contextos sociais.

A atenção crescente que a literacia tem tido nos últimos anos é em parte atribuída ao crescimento exponencial da quantidade de informação disponível, bem como, ao predomínio crescente dos formatos digitais.

Falar de literacia implica:

·                                 O perfil de literacia de uma população não é algo que possa ser considerado constante, ou seja, que possa ser extrapolado a partir de uma medida temporalmente localizada;

·                                 O perfil de literacia de uma população não é algo que possa ser deduzido a partir, simplesmente, dos níveis de escolaridade formal atingidos;

·                                 A literacia não pode ser encarada como algo que se obtém num determinado momento e que é válido para todo o sempre;

·                                 A literacia não é algo estático, isto é, as competências das pessoas sofrem evolução (positiva ou negativa) das capacidades individuais;

·                                 Os níveis de literacia têm de ser vistos no quadro dos níveis de exigência das sociedades num determinado momento e, nessa medida, avaliadas as capacidades de uso para o desempenho de funções sociais diversificadas;

·                                 A literacia consiste num conjunto de competências que se vão aperfeiçoando ao longo do tempo e através da experiência adquirida em pesquisa, selecção e avaliação da informação.»

Parece podermos concluir que LITERACIA não é algo que se “adquire” numa faz da vida e fica para sempre… nem, muito menos, algo que se aprende para nos tornar dependentes. Antes, isso sim, para nos permitir uma realização como Pessoas e intervenientes na Comunidade.

2

2 – A importância de «SABER LER” como base de realização pessoal e inserção social… mostrar o entusiasmo e quase deslumbramento dos Poetas, muitos considerados “Analfabetos”, pela oportunidade que tiveram de “aprender a ler” manifestada em várias Décimas e relatos reais…

Analisar entretanto a contradição gritante: Este entusiasmo, sedução, necessidade imperiosa, profundamente sentida por estes Poetas, por «APRENDER A LER», contrasta com o desprezo, alheamento, distanciação quase envergonhada que a Escola Oficial apresenta perante esta notável e rica manifestação de CULTURA, marca de uma Identidade genuína duma região e dum povo. Já dizia Torga: “A desgraça de um povo é o Povo Saber de uma maneira e a Escola doutra! …”

APRENDE A LER NÃO DESISTAS,

EMPENHA-TE BEM A FUNDO

FICARÁS COM OUTRAS VISTAS

SOBRE A VIDA, SOBRE O MUNDO

1.

Quem não aprende em criança

A ler e a escrever

Logo que o possa fazer

Aconselho essa mudança.

Tudo o que a custo s'alcança

Traz delícias imprevistas,

Ó adulto, é bom que insistas,

Não receies, não tenhas medo,

D'um tarde se faz um cedo

APRENDE A LER NÃO DESISTAS.

2.

Não saber ler é andar

Por esse mundo às escuras,

É uma das criaturas

Que mal se sabe guiar.

No entanto, quem tentar

Aprenderá, não confundo,

Terá de alívio um segundo

Quem não foge a sacrifícios,

Em prol dos teus benefícios

EMPENHA-TE BEM A FUNDO.

3.

Fazer por ter mais cultura

É sempre um passo bem dado,

Quem o fizer de bom grado

Faz sempre boa figura.

Mal desse que não procura

Saber ler obras de artistas

Por vezes tão progressistas

Qu'é uma luz que s'acende,

Zela por ti e aprende

FICARÁS COM OUTRAS VISTAS.

4.

O analfabeto que passa

Onde vê um livro escrito

Fica triste e aflito,

Desconhece o que tem graça.

A moral que um livro traça

Tem um encanto profundo,

Até qualquer vagabundo

Se ler bem é mais feliz,

Sabe melhor o que diz

SOBRE A VIDA, SOBRE O MUNDO.

 

Ti Limpas no Final da década de 80, 1° Prémio em concurso nacional promovido pela Direcção Geral de Educação de Adultos.

Aprende a ler e não desistas

Empenha-te bem a fundo

Ficarás com outras vistas

Sobre a vida e sobre o mundo

I

Todos deviam saber

Que é a coisa mais bonita

Ver-se uma palavra escrita

Saber-se o que quer dizer

Já depois de se aprender

Compram-se belas revistas

Os jornais aos jornalistas

Livros de contos ou histórias

Puxa pela tua memória

Aprende a ler não desistas

II

Saber ler é interessante

Todos sabemos que sim

É de tudo para mim

A coisa mais importante

Gosto de ver um estudante

Com o seu saber profundo

Faz o primeiro e o segundo

Com a sua inteligência

Estuda a maior ciência

Empenha-te bem a fundo

III

Esta é a maior riqueza

Que todos podemos ter

É com lápis de escrever

Com a maior delicadeza

Considero uma beleza

Das mais perfeitas conquistas

Ficamos mais artistas

Eu quero que consideres

Aprende se não souberes

Ficarás com outras vistas

IV

Também sou analfabeto

Dos jogos floriais

Sou adulto como os mais

Meu saber não é concreto

Não faço o nome correcto

Algumas letras confundo

Chamaram-me vagabundo

Por ser na serra pastor

Mas considero-me senhor

Sobre a vida e sobre o mundo.

 

X de José Mestre Madeira (anos setenta), Portel

In POETAS DE CÁ, Vol. I – breve panorama da poesia em Portel, recolha, organização e introdução Paulo Lima, Câmara Municipal de Portel, pp. 107 a 146 (1. p. 111 – 2. p. 112)

DÉCIMAS de Francisco Piriquito Junior,

nascido em S. Matias , Beja

I

EU MAL APRENDI A LER

EU MAL APRENDI A LER

NUMA ESCOLA PARTICULAR

QUANDO FIZ A QUARTA CLASSE

DEU-ME VONTADE DE CHORAR.

 

Comecei na incerteza

Na vida triste e sombria.

Na classe que pertencia

Ainda imperava a pobreza.

Foi com imensa tristeza

Que ao meu pai ouvi dizer:

Tens que ir ganhar para comer...

Tem paciência, Joaquim...

Nesse tempo a vida era assim

Eu mal aprendi a ler.

 

Já homenzinho ingressei

Num teatro de amadores

Imaginem, meus senhores,

Como contente fiquei!

Sempre com afinco estudei

O papel que me calhasse

Esperando que me deparasse

Alguma oportunidade...

Foi aos vinte e oito anos de idade

Quando fiz a quarta classe.

 

Era um garoto franzino

Com pouca saúde também

Os meus irmãos, com desdém,

Chamavam-me: - Menino fino.

Por malfadado destino

Tive que a escola deixar

Fui umas cabras guardar

Mas sempre num livrito li

Para não esquecer o que aprendi

Numa escola particular.

Surge o presépio sagrado

Auto de meditação e fé...

O papel de S. José

Foi por mim interpretado.

Depois de o ter terminado

Um padre me veio chamar

Para no palco me apresentar

Como verdadeiro artista...

Senti humedecer a vista...

Deu-me vontade de chorar.

Francisco Piriquito Junior Nascido em 05.12.1924, (in POETAS POPULARES DO Concelho de Beja, Edição da Câmara Municipal de Beja, 1987).

 

SE TEVE A INFELICIDADE

SE TEVE A INFELICIDADE

SE NÃO APRENDEU A LER

VÁ À ESCOLA COM ATENÇÃO

AINDA PODE APRENDER.

 

Não precisa ser chamado

Pode ir quando quiser,

Seja homem ou mulher,

Seja solteiro ou casado,

Não deve estar envergonhado,

Nem sentir inferioridade.

Não tem limite de idade

Para se valorizar...

Deve agora aproveitar

Se teve a infelicidade.

 

O que hoje se pode fazer

Para amanhã não se guarda.

A D. Maria Eduarda

Recebe-o com muito prazer.

Quanto mais gente aparecer

Com mais gosto ensina a lição.

Para ser um cidadão

Livre de obscurantismo

Liberte-se do analfabetismo

Vá à escola com atenção.

 

Porque é que não aceitamos

Aquilo que nos querem dar?

De quem nos quer ajudar

Porque não nos aproximamos?

Se indiferentes ficamos

Que lhe pode acontecer?

Pode mais tarde dizer:

Bastante pena eu tenho.

Em ir à escola faça empenho

Se não aprendeu a ler.

Ainda pode possuir

O que tanta falta lhe faz.

Não diga que não é capaz

De esse dom adquirir.

Se chegar a conseguir

Pode seus versos escrever.

Deve de comparecer

Na escola sem demora.

Aquilo que ignora

Ainda pode aprender.

Francisco Piriquito Junior Nascido em 05.12.1924, (in POETAS POPULARES DO Concelho de Beja, Edição da Câmara Municipal de Beja, 1987).

RIQUEZA E VISTA PERFEITA - mn

Riqueza e vista perfeita

Num homem sem saber lêr

É ser rico andar a esmola

Ter boa vista e não vêr

Dois filhos dos mesmos pais

Vê-se um em oiro nadando

Outro com a fome lutando

Que heranças tão desiguais

Da mão de quem dá o mais

O pobre o menos aceita

E se uma cegueira o espreita

Mais a sorte e desditosa

Por tanto é feliz quem gósa

riqueza e vista perfeita

Basta não pode ufanar-se

De felis em todo o sentido

Pode ao pobre instruido

Suceder ter que humilhar-se

Té por não saber expresar-se

A sua pêta rebola

Já vê que não tem da escola

O bem que esta lhe concede

Não tem e por não ter pede

É ser rico andar a esmola

 

Mas se for analphabeto

Pode como ignorante

Sair-lhe um trato importante

Por um caminho indireto

E se em seu favor o discreto

Essa questão resolver

Do seu digno saber

Um bom documento dá

E essa vantagem não ha

Num homem sem saber ler

 

(“Num homem sem saber ler”

repetido no manuscrito)

 

Pede indispensavelmente

Por falta de educação

A vantajosa instrução

Para que por si represente

E pra êle surpreendente

Simples cousa pode ser

Olhar não comprehender

Se é por letras enganado

Eis pois como esta provado

Ter bôa vista e não ver

Inocêncio de Brito (1854 – 1938) – Gritos na Solidão – S. Matias. Beja, 2006

 

Décima de António Joaquim Talhinhas (72 anos em 1981)

In HÁ TANTA IDEIA PERDIDA

– 1º Encontro de Poetas Populares Alentejanos

- Centro Cultural Popular Bento de Jesus Caraça –

c/ apoio da Câmara Municipal de V. V. Agosto de 1981, pp. 113 e 114

 

EU TRABALHO NOITE E DIA

À CHUVA E AO CALOR

HÁ TANTA IDEIA PERDIDA

NÃO HÁ QUEM LHE DE VALOR

 

 

Como eu nunca estudei

Como Camões e Bocage

Minha poesia tem passage

Aonde se diz e se lê

Do poucochinho que

É da minha teoria

Não tenho sabedoria

P'ra falar com fundamento

P'ra estudar falta-me o tempo

EU TRABALHO NOITE E DIA!

 

 

Com o dom que Deus me deu

S'o mundo andasse às direitas

Se eu fosse puchado em letras

Um sábio seria eu

Se eu estudasse num liceu

Dizia a minha mãe querida

 

"Não há dinheiro p'ra teu fundo

E como tu cá neste mundo

HÁ TANTA IDEIA PERDIDA!

 

Com a pobreza fui criado

Neste mundo vale d'enganos

Ainda não tinha sete anos

Já era ajuda de gado.

O meu pobre pai coitado

Andava ao mesmo rigor

Foi ele o meu professor

Pessoa bastante séria

E assim passei na miséria

À CHUVA E AO CALOR!

 

Seja moça ó rapaz

Muito ou pouco inteligente

Se tem dinheiro vai p'ra frente

Se o não tem fica p'ra trás

Com o dinheiro tudo se faz

Que o dinheiro é um traidor

Dum rude faz um Doutor

É assim no mundo inteiro

Um pobre sábio sem dinheiro

NÃO HÁ QUEM LHE DÊ VALOR!

 

 

Creio que não faça censura

Das pobres poesias minhas

ANTÓNIO JOAQUIM TALHINHAS

É a minha assinatura

Não posso ir à grande altura

Eu sei qu'há melhor quem faça

Não sou poeta de raça

Só fiz o melhor que pude

Leia com sorte e saúde

Centro Bento de Jesus Caraça

 

* * *

O SOL E A LUA
(Para ser dita pelo Coimbra)

 

NA IGREJA DA ESTRELA D’ALVA

CASOU O SOL COM A LUA

DEU A LUA AO SOL MIL BEIJOS

E A BEIJÁ-LO CONTINUA

 

Pediu dom Feblo e flamante

À Natura maravilha

Que lhe desse a mão da filha,

Dona Lua cintilante.

Satisfeito o Sol brilhante,

De chapéu à marialva,

Mandou dar ‘ma grande salva (uma ressalva)

De trovões que encomendou

E com a Lua se casou

NA IGREJA DA ESTRELA D’ALVA

 

Houve um baile de planetas,

Foi Mercúrio o mestre Salas,

Saturno entrou de galas,

Cantou lindas cançonetas.

Depois de tantas caretas,

Depois de tantos bracejos,

Dom Feblo ardendo em desejos

 

Retirou-se com a consorte

E detrás da Estrela do Norte

DEU A LUA AO SOL MIL BEIJOS

 

Alto Júpiter potente

Serviu de casamenteiro

Padrinho, Marte guerreiro,

Madrinha Vénus, ridente.

Cortejo belo, imponente,

De estrelas em flatua

Delírio em vasta rua

E os noivos num carro de ouro

Bradavam todos em coro

CASOU O SOL COM A LUA

 

Quase o enlace formoso

Em que o cortejo do Sol

Já enfrascado em briol

Fez um barulho espantoso.

O mesmo Sol respeitoso

Apanhou certa pirua

Pra mais que a esposa sua (evitar)

O não censurasse em ser fraco

Beijou o Sol o Deus Baco

E A BEIJÁ-LO CONTINUA

 

Aprende, SÃO BOAS, COM FUNDAMENTO, MAS NÃO SÃO MINHAS! (Autor desconhecido – para ser dita pelo Coimbra)

3

3 – Os perigos da “INSTRUÇÃO bancária” (como lhe chamava Paulo Freire) … e assim, ver entretanto as armadilhas em que se podem enredar os “alfabetizados” pelos tidos com “instruídos” e/ou “sabidos” que, em vez de “educarem para a Liberdade e Cidadania, pretendem, tão só, que se aprenda a “ler” o que eles determinam… e recusam o diálogo ou o papel interventivo dos “alfabetizados” críticos e conscientes… Dar uma vista de olhos pelos “MIDIA” e seus donos…

 

Mas Mestre Madeira, já citado no ponto 1, entretanto desafia:

 

Alunos e professores

Atenção que logo falas

Os meus estudos são superiores

Porque aprendi sem ter aulas

 

I

Aprendi com os passarinhos

Eles também aprenderam

Eles não escrevem nem leram

Estão lá no campo sozinhos

São eles os meus vizinhos

Alegres e encantadores

Há tantos de várias cores

E tão bonitos que são

Hoje aqui dou eu a lição

Alunos e professores

 

III

Se me gostarem de ouvir

Tenho mais para lhe dizer

Trouxe o livro para ler

Quando pensei em cá vir

Foi só para me divertir

E me darem mais louvores

Minhas senhoras meus senhores

Saúde e felicidades

Eu respeito as idades

Os meus estudos são superiores

 

II

Sou poeta popular

Como há tantos por aí

Do que sei nada escrevi

Só penso em decorar

Se me esquecer tento lembrar

Das palavras e versá-las

Dizê-las e compará-las

Trazê-las no pensamento

Para as dizer no momento

Atenção que logo falas

 

IV

Queiram-me aqui desculpar

Que eu digo a razão porquê

É que há pouco disse que sei

E foi só para mangar

Não fique alguém a pensar

Que eu tenho lápis ou malas

Ou que conheço estas salas

Que se chamam uma escola

Nem no campo eu joguei à bola

Porque aprendi sem aulas

 

 

X de José Mestre Madeira (anos setenta), Portel

In POETAS DE CÁ, Vol. I – breve panorama da poesia em Portel, recolha, organização e introdução Paulo Lima, Câmara Municipal de Portel, pp. 107 a 146 (1. p. 111 – 2. p. 112)

 

JÁ FUI SENHOR PROFESSOR - mn

 

Já fui senhor professor

A um pai eduquei filhas

Agora sou não sei quem

Da ribeira de campilhas

Ditoso homem que gosa

De profissões quantas quer

Diga o contrario quem disser

É pessôa venturosa

Entre élas a mais honrosa

Já eu fui merecedor

Por um meio seja quem fôr

Por meos dotes excelentes

De jovens minhas parentes

Já fui senhor professor

Elle então aos meos cuidados

As meninas entregou

Certamente confiou

Em meos modos delicados

Para os fins mencionados

Estavão de mim à mercê

Nesse tempo já se vê

Era o seu mestre estimado

Era délas respeitado

Agora sou não sei que

 

Fis excessos e bastantes

Pra que elas se aplicassem

Pra que lessem e estudassem

As coisas mais interessantes

Como as terras importantes

Do continente e das ilhas

Do mundo as maravilhas

Istoria passada e presente

De quanto sei finalmente

A um pai eduquei filhas

 

Agora sou maltezóte

E para as insígnias da malta

Hoje presente só me falta

A bordôa o tarro e o capote

No jogo do deite e bóte

Sou o az Mato as manilhas

E pra esgotar essas bilhas

Por aqui tudo me aclama

Pelo Sagorro da fama

Da ribeira de campilhas

Inocêncio de Brito (1854 – 1938) – Gritos na Solidão – S. Matias. Beja, 2006

É tentar imaginar nesta DÉCIMA o desejo natural de ensinar a outros aquilo que aprendeu. Naquela época em que não havia facilidades de frequentar a escola, talvez este impulso natural tenha criado a vocação de alguns dos seus descendentes que vieram a ser professores...

 

A INSTRUÇÃO É PRECIZA - mn

A instrução é preciza

A instrução não convem

A instrução embrutece

A que a instrução tem

Base das habilidades

Importante educação

Sem a sua proteção

Não brilham dignidades

As maiores barbaridades

O seu poder civiliza

E se com ela se diviza

A lus do entendimento

Quase como o alimento,

A instrução é preciza.

Esse dóte essa riquêza

Esse dom essa excelencia

Faltando-lhe a consciencia

Não lhe pertence a nobrêza

Quem zéla pela defêza

De quem castigo meréce

Se um sagrado dever esquece

E pratica por ambição

Nada vale a instrução

A instrução embrutece

 

Ela meiga e carinhosa

Abre os olhos à infancia

Opôe à ignorancia

A sciencia vantajosa

Por tanto tem (quem) a gósa

Dispoder dela muito bem

Mas se com orgulho ou desdêm

A transforma inconsciente

Então verdadeiramente

A instrução não convem

 

Creio ser ela o principal

Adôrno da creatura

Que illustra quem a procura

Com um dom sem ter rival

Mas sem auxílio moral

Não pode illustrar ninguém

Com imoral se houver quem

Com imprópria instrução suba

Essa desfeia e derruba

A quem a instrução tem.

«É letra de 85 anos não posso »??? ...

 

Nota 1 - Esta décima terá ficado célebre em S. Matias e zona de Beja, pois o poeta, tê-la-ia feito, na ocasião em que o Ministro do Justiça do I Governo da República, Afonso Costa, teria ido ao tribunal de Beja como advogado. Foi o caso de um cigano que matou um agricultor, mas como o cigano era rico, Afonso Costa veio defendê-lo e ganhou a causa. A jovem República que se propunha acabar com os abusos, privilégios e desmandos da Monarquia, logo no início, demonstrava assim a sua vocação para defender “os pobres e os oprimidos”!!!

Assim a família do agricultor, foi prejudicada e roubada duas vezes: pelos ladrões e pela justiça.

Nota 2 - Os parêntesis indicam modos diferentes como estas Décimas foram recolhidas. São, evidentemente, casos normais neste tipo de poesia essencialmente oral, correndo o risco de o próprio autor a ter dito de diversas maneiras, e consequentemente, aqueles que a aprenderam e repetem de cor, umas vezes cedem à tentação de emendar ou complementar o que é de difícil intelecção, ou há mesmo palavras ou expressões que não se entendiam. Sempre que tiver oportunidade, registarei as várias versões e tentaremos no fim chegar a uma leitura corrente, com as notas em roda pé para não estragar a fluidez da leitura.

Nota 3. Ver noutra parte, o mesmo MOTE glosado pelo Ti Belchior, já falecido, da Estação de Ourique. Segundo o senhor Vítor Paquete, muito conhecedor do Alentejo, esta glosa também tem uma história. Terá sido um Mote trazido de Coimbra por um estudante de Aljustrel, o Brito Camacho, e teria sido dado pelos colegas que não acreditavam que houvesse poetas alentejanos, que, de uma Quadra - Mote, criassem as quatro Décimas como desenvolvimento do tema.

Ou o MOTE já era de Inocêncio de Brito e o Brito, o Camacho achou que seria o mais indicado para o “consoante” que se pretendia?

Ou o MOTE é do Ti Belchior e o Inocêncio terá usado um Mote Alheio como era uso entre os poetas populares, para melhor tratar o tema que pretendia? Mas o Ti Belchior seria mais novo e assim é natural que tenha sido ele a usar um Mote Alheio. Há quem sugira que o MOTE seria do Brito Camacho que era versado em letras e era escritor polémico e conflituoso. Até prova em contrário, nós apostamos no Ti Inocêncio.

Nota 4: Na recolha de J. Parreirinha, é curioso notar que, talvez por influência do pai, o 2º verso foi registado com um SIM: “A instrução, sim, convém”.

 

A INSTRUÇÃO (NÃO) É PRECISA

pelo Ti Belchiorinho da Estação de Ourique

 

A INSTRUÇÃO (NÃO) É PRECISA

A INSTRUÇÃO NÃO CONVÉM

QUE A INSTRUÇÃO EMBRUTECE

A QUEM MUITA INSTRUÇÃO TEM.

 

Duques, marqueses, morgados

Família de igual medida

É tudo gente instruída

Alguns em direito formados

Lentes e deputados

A morte os harmoniza

Sabe Deus quem autoriza

A conhecer o bem do mal

Para a base fundamental

A instrução não é precisa.

O rico por ter estudado

Não faz trabalhos de peso

Nem encargos de desprezo

Quem os faz é gente rude

O que não sabe faz tudo

É o que menos merece

É aquele que não conhece

De que serve ter aprendido

Há tanto homem instruído

Que a instrução embrutece

 

Se todos pudessem estudar

E todos pudessem saber

Quem havia exercer

Por aí tanto lugar

Ninguém queria trabalhar

Cuidar dos gados de alguém

O estudo para quem não tem

Não é útil o seu ensino

Para quem é pequenino

A instrução não convém.

 

Ver-se o pobre ignorante

Não causa admiração

Ele não recebeu instrução

Não vê os erros por diante

Admira é o estudante

Que vai a Coimbra e vem

Não é um são mais de cem

Se a gente os for a contar

Isso é que é para admirar

A quem muita instrução tem.

Uma Décima com o mote INSTRUÇÃO, talvez anterior (?) à da Inocêncio de Brito… Glosando o mesmo mote mas com o 1º verso modificado (?), transcrevemos esta décima atribuída ao “tio” Belchior, (falecido), Estação de Ourique, Castro Verde, in a espiga - uma publicação Nº 1 de 1982, da Escola Preparatória de Beja, coordenada por Abílio, Maria do Carmo, Maria da Conceição Teixeira e Maria Joaquina.

Ver nas DÉCIMAS de I. Brito o mesmo MOTE (excepto o “NÃO é precisa” que pode ser erro da transcrição) glosado por Inocêncio de Brito. As histórias que terão dado origem aos respectivos desenvolvimentos, são completamente diferentes. Segundo Victor Paquete, dizem uns amigos do Ti Belchiorinho da Estação, por exemplo o Chico Nobre Carreira, de Casével, que terá sido feita, provocado pelo desgosto causado pelo filho que foi estudar e na volta, nem sequer ligava ao pai. Mas segundo investigações do mesmo, terá sido um Mote trazido de Coimbra por Brito Camacho, pelos colegas que não acreditavam que houvesse poetas alentejanos, que, de uma Quadra - Mote, criassem as quatro Décimas como desenvolvimento do tema.

Afinal, quem será o autor do MOTE e qual é? Com NÃO ou sem NÃO? Ora este episódio ter-se-á passado pelos anos 1880/90. O Ti Belchior morreu em 1917, vítima da pneumónica. Ora a vinda do Afonso Costa a Beja, que terá dado origem à DÉCIMA de Inocêncio de Brito, ter-se-á passado, pelos anos 1912/13. Assim, será fácil recolher dados sobre esse episódio, pelos registos do tribunal ou até junto de pessoas que ouviram contar...

 

NÃO SOU ESPERTO, NEM BRUTO

 

NÃO SOU ESPERTO NEM BRUTO

NEM BEM, NEM MAL EDUCADO

SOU APENAS O PRODUTO

DO MEIO EM QUE FUI CRIADO.

 

Ao lembrar o personagem

Que este mote escreveu

A oportunidade que me deu

Para lhe prestar homenagem

Com espírito de camaradagem

Defendo o meu reduto

Ao meu cérebro recruto

Talento e sabedoria

Para dizer como ele dizia:

Não sou esperto nem bruto.

 

Não posso rivalizar

Com poetas deste quilate.

Cometia um disparate

Se nisso fosse pensar.

Limito-me a valorizar

O meu saber diminuto

Para não ficar de luto

Nem sequer mal cultivado.

Do que tenho concretizado

Sou apenas o produto.

 

Não sigo suas pegadas

Nem o posso igualar.

Ao seu mote vou juntar

Estas minhas simples quadras

Humildemente rimadas

Com este significado

Para que não seja abandonado

O Património Cultural.

Sou um cidadão afinal

Nem bem, nem mal educado.

Falando de António Aleixo

Grande poeta algarvio

Quem me dera ter seu brio

Circular no mesmo eixo...

Quem não tem o apreteixo

Dum cérebro privilegiado

Como ele foi dotado...

Eu não tive esse condão

Vou mantendo a tradição

Do meio em que fui criado.

Com MOTE de uma QUADRA de António Aleixo e em sua homenagem, – MOTE ALHEIO.

Francisco Piriquito Junior, nascido em S. Matias , Beja Nascido em 05.12.1924, (in POETAS POPULARES do Concelho de Beja, Edição da Câmara Municipal de Beja, 1987).

 

Décima de Manuel da Silva Graça –

In QUADRAS DO GRAÇA… COM GRAÇA!

Associação para o Desenvolvimento de Amoreiras Gare, 2004, p. 21

 

Ser poeta

A Poesia popular

Que nos fala ao sentimento

O Poeta diz a rimar

O que lhe vai no pensamento

 

I

O dote de ser Poeta

Não se compra e não se vende

Não se ensina e não se aprende

De uma maneira concreta

Para atingir essa meta

Não adianta estudar

Pois ninguém pode ensinar

A quem não tem capacidade

É esta a realidade

Da poesia popular

 

III

Para ser poeta perfeito

Não necessita instrução

É necessário vocação

Para os versos dar no jeito

Puxar dentro do peito

Os pontos no seu lugar

Não é versar por versar

Poemas sem ter raiz

Aquilo que um outro diz

O poeta diz a rimar

 

II

Ninguém poderá dizer

Que foi por outro ensinado

Já trazia destinado

Esta arte logo ao nascer

Não é por maior saber

É uma questão de talento

Invisível como o vento

Traduzindo vários temas

Produz inúmeros poemas

Que nos fala ao sentimento

 

IV

Transformar em lindos versos

Qualquer assunto banal

Dando o mote principal

Para temas tão diversos

Reunindo pontos dispersos

Com claro conhecimento

Versando a qualquer momento

Versos com pura magia

Transmite na poesia

O que lhe vai no pensamento

 


Ver José Romão In CANTADORES DE ALEGRIAS E MANGAÇÕES

Ed. Da Câmara Municipal de Alandroal, 1993? p. 13

– pp. 117 a 122

 

Mote da X

O dote não é comprado

O dote ninguém o vende

O dote por Deus é dado

Não se ensina nem se aprende.

 

1

Quem tem o dote de artista

É logo artista ao nascer

Tudo deve saber

A prova está bem à vista.

Seja de poeta ou fadista

Qualquer dote admirado

Só é apenas gerado

Pela força do destino,

O dote não tem ensino

O dote não é comprado.

 

3

O dote é uma ciência

Que nasce dentro de nós

Não tem vulto nem tem voz

Nasce da inteligência.

Vem-nos pela providência

Conforme for destinado

Um bom dote é invejado

Por aquele que o não tem,

Bom ou mau p'ra todos vem

O dote por Deus é dado.

 

2

o dote nasce na gente

É filho da natureza

O dote é uma beleza

Que há em nós muito diferente.

Seja quem for certamente

Quem um bom dote pretende

Se o não tem não se defende

Nem com montes de dinheiro,

Se correr o mundo inteiro

O dote ninguém o vende.

 

4

Se um bom dote se comprasse

De menino até velhote

Quem tinha dinheiro tinha um dote

Bom, custasse o que custasse.

Mas se na gente não nasce

Creio que tudo compreende

Que Deus a ninguém atende

Pedidos a esse fim,

Então o dote é assim

Não se ensina nem se aprende.

 

Décima de Francisco Gonçalo Vaz - Beja

In

«em cada casa uma porta – em cada porta um postigo»

«em cada vida um poeta – em cada poeta um amigo»

Antologia de Poesia Tradicional do Alentejo, Edição – Associação Terras Dentro, 1996? , p. 11 (Ver as introduções pp. 4 a 7.

 

Poeta que não sabes ler

Teu arquivo é a memória

Tu não pudeste aprender

Mas ser poeta é ter glória

 

No teu tempo de menino

Se teus pais têm podido

Tu terias aprendido

E seguido outro destino

Quando eras pequenino

Teu desejo era aprender

Se tivesse podido ser

Hoje serias um doutor

Mas é grande o teu valor

Poeta que não sabes ler

 

Com teus pais a trabalhar

Sob a chuva e ao calor

Sem lhe darem o seu valor

E nem puderam descansar

Fazendo esforço para ganhar

Para te darem comer

Conseguiste tu sobreviver

com esse desgosto profundo

Com tanta escola no mundo

Tu não pudeste aprender

 

Essa tua inteligência

Que tantos gostavam de ter

Veio contigo ao nascer

Faz parte da tua existência

Tem tão grande influência

Faz falar de ti a história

É para ti uma vitória

Mas como não aprendeste

Aquilo que sempre quiseste

Teu arquivo é a memória

 

Não sabes pede a alguém

Que escreva o que ditas

Essas frases tão bonitas

Que só tu e mais ninguém

As saber dizer tão bem

E trazes na tua memória

Tens uma qualidade notória

Embora não saibas ler

Teu desgosto é não saber

Mas ser poeta é ter glória

 

Francisco Gonçalo Vaz Beja

CONCLUSÃO:

 

Em que ficamos?

1. A Literacia / Alfabetização é fundamental para o desenvolvimento pessoal e colectivo, condição de inserção no Mundo, na sociedade, na Comunidade…

2. Podemos constatar entretanto o divórcio entre uma pretensa Cultura dita erudita e a Tradicional / Popular, donde aquela forçosamente nasce. A criação do Mundo não começou pela Escola!!!

Convém estar prevenido para os perigos da “Alfabetização bancária”, da “instrução massificada” para instrumentalizar e colocar as pessoas livres e independentes ao serviço dos que dominam o Poder e os Media… Há que implementar a “Alfabetização / Conscientização” que torna as pessoas senhoras do seu destino e interventivas no processo do Desenvolvimento pessoal e global…

3. Apraz-me, rejeitando uma certa pretensão de “salvador da pátria”, voltar a 1985 e 1997… à proposta que apresentei no 1º Congresso sobre o Alentejo, em Évora, Outubro de 1985 para a criação de um Instituto alentejano de cultura / Desenvolvimento… e para as propostas apresentadas no livro: “Poetas Populares do Concelho de Beja”, 1997…

Para estranhar ou antes olhar para o panorama da nossa rica e insubstituível Cultura Tradicional Popular e verificar a triste realidade da não existência de uma Associação credível e forte dos Poetas Populares, estes criadores, “fazedores”, “d(e)izedores” de Poesia…

Através da MOSTRA em DIAPORAMA e do MONTE de LIVROS expostos, tudo de uma mera colecção particular, podemos ver e admirar, apesar de tudo, a quantidade e a “qualidade” do que está já publicado.

O IAC/D proposto e que desde há mitos parece natural e imperioso, com este ou outro nome, e só peca por tardio, poderia criar espaço para cada um ter o seu lugar e congregaria especialistas de todas as áreas do SABER para recolher, implementar, organizar, estudar, dar a conhecer e dar a fruir à Comunidade, crianças, jovens e adultos estas manifestações de cultura, marca de uma indelével Identidade, como alentejanos e como Portugueses, cidadãos do Mundo.

Talvez o possamos criar no Mundo VIRTUAL – ver eAlentejo e blog da Confraria do Pão.- e do João do Pão.

 

Vale de Milhaços, Corroios, 10 de Junho de 2010-06-10

 

José Rabaça Gaspar

ANEXOS - Declaração de Terena - pelo Ti Limpas




José Rabaça Gaspar

Com um GRANDE ABRAÇO para o Ti Limpas

No dia do seu ANIVERSÁRIO – 12 de Junho de 2010 – 81 ANOS!!!

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